A Contrologia de Joseph tem se perdido por falta de conscientização dos instrutores de Pilates


Quando Joseph Pilates desenvolveu seu trabalho, ele não criou simplesmente uma sequência de exercícios.
Ele desenvolveu um Método.
Um sistema de treinamento físico e mental que chamou de Contrologia, construído a partir de princípios, exercícios, equipamentos e uma lógica de progressão que buscava desenvolver o corpo de maneira integrada.
Décadas depois, o Pilates se tornou conhecido em praticamente todo o mundo. Está presente em academias, clínicas, estúdios, centros de treinamento e espaços de reabilitação.
Mas existe uma pergunta que nós, instrutores, precisamos ter coragem de fazer:
Quanto da Contrologia de Joseph Pilates ainda existe naquilo que hoje chamamos de Pilates?
O Pilates cresceu. Mas o Método também foi se transformando.
A expansão do Pilates trouxe inúmeros profissionais para esse universo e fez com que milhões de pessoas conhecessem seu trabalho.
Ao mesmo tempo, ao longo das décadas, diferentes escolas, interpretações e abordagens foram surgindo.
Exercícios foram modificados. Novos movimentos foram incorporados. Sequências foram abandonadas. Equipamentos passaram a ser utilizados de outras maneiras. Conceitos provenientes de outras modalidades foram introduzidos nas aulas.
A adaptação, por si só, não precisa ser encarada como um problema.
O problema começa quando já não sabemos mais o que estamos adaptando.
Quando o instrutor conhece apenas as adaptações, mas nunca estudou aquilo que veio antes delas, perde a possibilidade de fazer uma escolha consciente.
E existe uma diferença enorme entre modificar algo que você conhece profundamente e simplesmente reproduzir uma modificação sem conhecer sua origem.
A responsabilidade também é nossa
É muito fácil responsabilizar escolas, formações rápidas, redes sociais ou a própria evolução do mercado pelo distanciamento da Contrologia.
Mas precisamos olhar para nossa própria atuação.
Nós, instrutores, também somos responsáveis pelo Método que chegará às próximas gerações.
Cada vez que ensinamos um exercício sem compreender sua finalidade, cada vez que abandonamos a prática pessoal, cada vez que buscamos uma novidade sem antes conhecer profundamente os fundamentos do Método, contribuímos — mesmo sem perceber — para aumentar essa distância.
Por isso, preservar o Pilates não significa simplesmente repetir exercícios antigos.
Significa estudar.
Significa conhecer sua história.
Significa compreender o sistema.
Significa investigar por que determinados exercícios aparecem em determinada ordem, como os aparelhos se relacionam, quais habilidades precisam ser construídas e como o aluno progride dentro do Método.
E, principalmente, significa praticar Pilates.
O instrutor precisa voltar a ser aluno
Talvez esse seja um dos pontos mais importantes dessa discussão.
Não acredito que seja possível compreender profundamente a Contrologia apenas ensinando.
O instrutor também precisa treinar.
Precisa sentir o exercício no próprio corpo. Encontrar suas dificuldades. Desenvolver controle, força, mobilidade, coordenação, precisão e resistência.
Existem coisas que um livro pode explicar.
Existem coisas que um professor pode ensinar.
Mas existem aspectos do Método que somente a prática consistente consegue revelar.
Quando o instrutor deixa de praticar e passa apenas a ensinar, existe o risco de o Pilates se transformar em um repertório de exercícios que ele aplica aos alunos.
E a Contrologia é muito maior do que isso.
Pilates não é apenas um repertório de exercícios
Reformer não é Pilates.
Cadillac não é Pilates.
Wunda Chair não é Pilates.
Mat não é Pilates isoladamente.
Todos fazem parte de um sistema.
Essa talvez seja uma das maiores riquezas deixadas por Joseph Pilates: exercícios e aparelhos diferentes conversando entre si, oferecendo caminhos para desenvolver no corpo as habilidades necessárias para avançar dentro do Método.
Quando enxergamos apenas exercícios isolados, perdemos essa conexão.
Passamos a perguntar:
“Qual exercício posso fazer hoje?”
Quando talvez devêssemos perguntar:
“O que este aluno precisa desenvolver e como o sistema pode ajudá-lo?”
Essa mudança de raciocínio transforma completamente a maneira de ensinar.
Preservar não significa ficar preso ao passado
Existe também um equívoco importante quando falamos sobre tradição.
Preservar um Método não significa transformar o trabalho de Joseph Pilates em uma peça de museu.
Também não significa acreditar que todos os alunos devam executar exatamente a mesma aula, independentemente de idade, experiência, limitações ou necessidades individuais.
Um bom professor precisa observar.
Precisa interpretar.
Precisa tomar decisões.
Precisa adaptar quando necessário.
Mas existe uma condição fundamental:
para adaptar conscientemente, primeiro precisamos conhecer aquilo que estamos adaptando.
A tradição não deveria impedir o raciocínio.
Ela deveria fornecer a base para ele.
A Contrologia pode desaparecer sem que o nome Pilates desapareça
Talvez esse seja o ponto que mais deveria nos preocupar.
O nome Pilates provavelmente continuará existindo por muitas décadas.
As aulas continuarão acontecendo.
Os Reformers continuarão ocupando estúdios.
Novos exercícios continuarão aparecendo nas redes sociais.
Mas isso não significa necessariamente que a Contrologia continuará sendo transmitida.
Um Método pode desaparecer lentamente sem que seu nome desapareça.
Basta que cada geração retire um pouco daquilo que recebeu, acrescente elementos sem compreender sua origem e transmita uma versão cada vez mais distante da anterior.
Depois de algumas gerações, continuamos utilizando o mesmo nome, mas já não sabemos exatamente de onde aquilo veio.
É por isso que conhecer a história importa.
É por isso que conhecer as fontes importa.
É por isso que estudar as diferentes linhagens importa.
E é por isso que precisamos compreender o trabalho daqueles que aprenderam diretamente com Joseph e Clara Pilates e das gerações que vieram depois.
Não precisamos concordar com tudo. Precisamos conhecer.
Estudar o Pilates Tradicional e Original não significa abandonar todo o conhecimento desenvolvido posteriormente.
Também não significa estabelecer uma guerra entre Clássico, Tradicional e Contemporâneo.
A discussão mais importante deveria acontecer antes disso.
O instrutor sabe de onde veio aquilo que ensina?
Conhece a história do Método?
Conhece o Mat?
Conhece o sistema dos aparelhos?
Compreende as progressões?
Pratica aquilo que ensina?
Continua estudando?
Busca professores mais experientes?
Questiona suas próprias certezas?
Porque preservar um Método não depende apenas de defender uma tradição.
Depende de consciência profissional.
O futuro do Pilates está nas mãos dos instrutores
Joseph Pilates morreu em 1967.
Portanto, a responsabilidade de transmitir seu trabalho passou inevitavelmente para outras pessoas.
Dos professores que aprenderam diretamente com Joseph e Clara para as gerações seguintes.
E dessas gerações para nós.
Hoje, somos parte dessa corrente.
Daqui a vinte ou trinta anos, uma nova geração de professores ensinará aquilo que aprendeu conosco.
A pergunta é:
O que estamos entregando para ela?
Uma coleção de exercícios?
Uma modalidade que acompanha tendências?
Ou um Método que possui história, estrutura, lógica, princípios e identidade?
Não se trata de impedir que o Pilates evolua.
Trata-se de garantir que, para evoluir, ele não precise esquecer de onde veio.
Antes de ensinar Pilates, precisamos assumir o compromisso de estudá-lo
Talvez preservar a Contrologia comece com uma atitude muito mais simples do que imaginamos.
Voltar a estudar.
Voltar a praticar.
Voltar a perguntar.
Voltar às fontes.
Conhecer professores de diferentes gerações.
Entender as diferenças entre as escolas.
Experimentar o Método no próprio corpo.
E reconhecer que uma certificação não representa o fim da formação de um instrutor.
Ela deveria representar apenas o começo.
Porque quanto mais estudamos Pilates, mais percebemos o tamanho do universo que ainda existe para conhecer.
A Contrologia não será preservada apenas pelos livros, fotografias, vídeos ou equipamentos antigos.
Ela será preservada principalmente por professores que compreendam o valor daquilo que receberam e assumam a responsabilidade de transmiti-lo com conhecimento, respeito e consciência.
O futuro do Método depende de nós.
E talvez a pergunta mais importante que cada instrutor possa fazer hoje seja:
Quanto da Contrologia de Joseph Pilates existe, de fato, no Pilates que eu estou ensinando?
Por Robson FerriProfessor de Educação Física e Instrutor de Pilates TradicionalVO2 Pilates Tradicional | Origins Pilates Academy
Conhecer a origem não significa voltar ao passado. Significa compreender de onde viemos para decidir, conscientemente, para onde estamos levando o Método.



